"Foi boa a ideia de parar de beijar. Treze minutos é muita coisa, faz calor, me dói os carrinhos, cãibra na língua. Mas, onde você pensa que vai, menino? (...) você vai e muda os planos, com suas propostas silenciosas e olhares constrangedores, joelhos com joelhos, polegares arranhando cinturas, e outras fricções.
Meus pés são feios, eu acho, os dedos muito curtos, não faz assim. Com boca, dentes e saliva, você desmente minhas neuras, desarma meus complexos infantis de feiúra, um por um, cheio de malícia, paciência e atenção, intercalando lambidas, paradas estratégicas e olhares experimentais. É madrugada, é tarde, eu preciso ir, melhor nem começar (...) Mas, como eu não moro aqui, nesse corpo que até bem pouco tempo eu chamava de meu, admito. Você sabe lidar com ele bem melhor que eu. Você venceu.
Então, vou confessar. Quando sou capaz de manter os olhos abertos e me sinto ligeiramente confortável, acho bonitinho te ver passeando feito moleque em campo aberto, pulando cercas, subindo montes, descendo vales, colhendo amoras e framboesas, provocando o fogo, inflando a lua. E eu nem imaginava que os rapazes prestavam carinho a esse tipo de área. Você descobriu meu calcanhar de Aquiles, todos eles, e agora parece que tenho calcanhar de Aquiles no umbigo, na lombar, nas axilas, na nuca, atrás das orelhas, nas omoplatas, entre os dedos, no couro cabeludo, embaixo do queixo, ali atrás do joelho, onde não é coxa nem panturrilha.
(...)
É estranhamente divertido. Ironicamente me sinto uma criança arteira, no meio de uma brincadeira. Me dá uma vontade insana de rir, será que fica bem? (...) Me pega. Me preenche. Me puxa. Me cheira. Me vira. Me controla. Me treme. Me suja. Me tonteia. Me machuca. Nos próximos dias só quero lembrar você através dessas lembranças* (...) Quero te ouvir depois, todo bobo, dizendo que me imaginava diferente, que meu jeitinho comportado era propaganda enganosa."





